Manifesto

Enquanto jovens economistas, estudantes e profissionais da área, a compreensão coletiva de que eram escassos os fóruns progressistas, qualificados e amplos de discussão sobre o tema, nos unificou. Identificadas com um campo político que preza pelo combate às desigualdades e que enxerga na ação efetiva do Estado uma potencialidade de desenvolvimento econômico e social, nos víamos representadas em poucas opiniões públicas expressas por articulistas e profissionais da área. O sentimento de carregar uma posição destoante da convencional impunha a necessidade de agir coletivamente, aumentando o número de vozes no debate público.


Nos conhecemos dos bancos das universidades, dos debates políticos da juventude, da atuação profissional de início de carreira e atuamos - cada uma a sua maneira, cada uma em seu espaço - buscando apresentar a existência de um projeto alternativo. Desde 2015, quando se tornou latente o crescimento de um pensamento econômico descolado do cotidiano da nação, típico de um fundamentalismo dos anos 1980, para o qual o único e último objetivo da política econômica deveria ser reduzir a participação do Estado na economia, procuramos articular iniciativas que dessem voz a um debate mais plural e socialmente responsável. Por diversos meios circulamos ideias, formamos grupos e reconhecemos em nossas inúmeras diferenças, os pontos que nos eram comuns: a construção de um país mais desenvolvido, com mais direitos e menos desigualdade.


Somos de uma geração que tem na crise de 2008 um grande marco de sua juventude. Muitas de nós, movidas pelos desdobramentos do colapso econômico, optamos pelo estudo da economia. Ao lado de diversos movimentos de insatisfação com a atual forma de produção e distribuição da riqueza no mundo, buscamos ir além dos dogmas da desregulamentação financeira, da negação do Estado e da política fiscal. Alguns dos princípios que fazem com que, em diversos países do globo, sejamos a primeira geração a termos perspectivas de vida piores do que a de nossos pais.


Se, no Brasil, o sucesso dos primeiros anos do século XXI nos fizeram acreditar que poderíamos ser os primeiros a desfrutar de um país sem pobreza, mais igualitário e com mais direitos; o radicalismo da política econômica vigente e a leniência de muitos economistas com os atuais ataques a nossa democracia, tornam difícil manter a mesma esperança que um dia nos foi prometida. Os sonhos da primeira geração a entrar na universidade hoje terminam em um mercado de trabalho sem oportunidades, precário e explorador. A primeira engenheira da família provavelmente não encontrará emprego em sua área. A ambição da estudante dedicada em fazer pós-graduação se encerra em uma política econômica que defende o fim do financiamento à pesquisa. O curso técnico não garante mais um emprego formal e diante do desemprego de mais de 25% entre os jovens, uma bicicleta, um celular e 12 horas de jornada de trabalho se tornam a opção existente.


O atual modelo econômico é incapaz de apresentar futuro. Por um lado, o escárnio dos mais ricos nos diz que, a partir dos 20 anos devemos construir uma poupança mensal para nos aposentarmos dignamente. Em um país em que as perspectivas de presente e futuro são dilaceradas, que jovem tem condições financeiras de poupar qualquer quantia? De outro lado, tiram de nós a própria perspectiva da existência diante da tragédia climática negligenciada cotidianamente pelos detentores do poder econômico. Além das mudanças climáticas serem um processo que aumenta desigualdades de todos os tipos, há questões ainda mais urgentes: Haverá mundo para que nossa geração possa viver? E para nossas filhas? São perguntas que podem parecer ingênuas para os mais velhos, mas são óbvias para a juventude.


Este manifesto, entretanto, é para afirmar que nós não resignamos diante do desafio. Seremos portadores de um novo modelo de organização social. Não deixaremos de nos indignar, tampouco perderemos a irreverência necessária para fazer diferente. Vimos um país que crescia, distribuía renda e ampliava direitos. Vimos as cotas e o ProUni transformarem as universidades e queremos dar continuidade a este processo de democratização do conhecimento.


Enquanto os setores vinculados aos interesses da minoria propõem explicar para a maioria uma suposta justiça do atual estágio de exploração, queremos construir, a partir das experiências da maioria, um projeto coletivo de democratização econômica, política e social do Brasil. Não negamos o investimento intelectual feito em nós como ferramenta de transformação e compreensão da sociedade, mas queremos que ele seja constantemente preenchido pelo saber popular que transborda de nosso país e guiado pelas necessidades cotidianas do nosso povo.


Não somos a voz da verdade, tampouco pretendemos ser os proprietários do novo. Cabe às jovens cabeças reconhecer com humildade as limitações que são inerentes à idade. Conscientes deste fato, temos muito mais perguntas do que respostas e sabemos que, na medida em que algumas respostas aparecerem, surgirão inúmeras novas perguntas. As incertezas que orientam a construção de um projeto científico qualificado é motivo suficiente para que se preze sempre pela multiplicidade de ideias. Além disso, um projeto que se pretende popular e democrático não se efetiva se for elaborado com estreiteza política ou com preconceitos intelectuais. A diversidade é valor fundacional desta iniciativa.


Nossa atuação é regida por princípios que nos unem e pelo sentimento comum de buscar respostas para questões que, erroneamente, não se discutem em sala de aula ou em um escritório. Nossas posições serão construídas a partir de debates democráticos e fundamentadas no acúmulo já existente e formulado pela academia, pelas diferentes experiências de gestão pública e pelo debate vivo que se faz presente em todo o mundo e em cada canto deste país. Temos trajetórias diferentes e formações distintas, mas concordamos que é preciso construir um país com mais oportunidades e mais direitos. Sem desigualdades e mais soberania. Um Brasil que volte a oferecer para sua juventude um futuro digno, de igualdade social, desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental.


Hoje já é lugar comum para a juventude o ímpeto proposto pelo mangue beat de desorganizar para se organizar. Desejamos o mesmo para a economia: se as propostas do campo restringem-se a tanto tempo ao ajuste, nos resta retribuir com o desajuste, porque a realidade exige que pensemos fora da curva.