Aumentar a Diversidade em Economia não é só uma Obrigação Moral

Por Luiza Nassif

No dia 3 de novembro de 2019, participei do painel de encerramento do workshop dos alunos da pós graduação da The New School e UMASS Amherst, realizado na cidade de Nova York. O tema do painel foi "Ampliando as Fronteiras da Economia Política". Desde então, me formei e passei com sucesso pelo processo seletivo do Mercado de trabalho acadêmico. Hoje trabalho como professora e pesquisadora do Levy Economics Institute of Brad College, associada ao grupo de gênero, distribuição e economia. Compartilho a tradução da minha fala do ano passado com a esperança de que ela sirva de incentivo para mulheres, negros, indígenas e todos os estudantes de economia que, como eu, sentem na pele a discriminação na disciplina e no campo acadêmico. Também espero que minha fala possa ajudar meus colegas a entender a importância de lutar contra a misoginia e o racismo na academia. Gostaria de agradecer ao desajuste pela oportunidade de publicar esse texto e à Clara Brenck pela ajuda com a tradução.

O artigo original em inglês pode ser encontrado aqui.


Painel "Ampliando as Fronteiras da Economia Política" - Comentários de Luiza Nassif- Pires:

“Há algumas semanas, quando Mark [Setterfield] enviou um e-mail anunciando o tema do painel de encerramento deste ano,“ Ampliando as Fronteiras da Economia Política ”, tive uma vontade incontrolável de participar e dizer algo sobre diversidade.

Eu realmente tive que dar um passo para trás ontem à noite (a segunda vez que meu relógio indicou que era 1 da manhã) para entender: O que diabos eu estava pensando quando decidi adicionar mais um compromisso à minha agenda maluca de "escrever tese, trabalhar em quatro empregos e me preparar para o mercado de trabalho"? O que é essa vontade incontrolável de dizer algo sobre diversidade que me manteve trabalhando madrugada adentro num sábado?

Para explicar esse desejo, preciso compartilhar um sentimento muito específico que tive ontem à noite. Vejam bem, eu tenho me educado bastante para entrar no mercado de trabalho, tenho estudado economia feminista há algum tempo; isso significa ler muito sobre discriminação. Então, eu realmente pensei que já conhecia todas as formas como ser uma mulher brasileira afetaria minha capacidade de não me tornar mais uma estatística de gênero no “leaking pipeline” da profissão econômica. Então, por favor, imagine-se exausta de tanto trabalho, orgulhosa de um artigo a ser publicado em co-autoria com um professor homem lendo isto:

"Sarsons (2015), usando dados do currículo de economistas, ..., documentou que, embora um artigo em co-autoria para um homem tenha o mesmo efeito sobre a probabilidade de se tornar professor titular que um artigo de autoria solo, as mulheres sofrem uma penalidade significativa por coautoria, especialmente quando seus co-autores são homens."

Bayer e Rouse (2016)

Bem, claramente meu desejo de estar aqui hoje discutindo diversidade é um reflexo de sobrevivência. Mas também, apenas alguém que sente esse fardo é capaz de expressá-lo e expô-lo. Com isso, vem uma responsabilidade, uma obrigação moral, que eu levo muito a sério como uma mulher branca privilegiada brasileira cursando doutorado nos EUA.

Por agora vocês devem estar se perguntando: o que tudo isso tem a ver com a ampliação de fronteiras da economia política? Bem, já estabeleci que acredito que lutar pela diversidade é um reflexo de sobrevivência e uma obrigação moral. Quero agora argumentar que também é condição necessária para o aprimoramento das nossas teorias econômicas.

Como economistas, frequentemente nos vemos presas ao dilema entre escrever nossos artigos usando a execrada voz passiva, o sujeito indeterminado ou o pronome "nós". Mas quem somos "nós"? "Nós" somos observadores neutros dos fenômenos sociais. "Nós" somos cientistas em acordo. "Nós" compartilhamos teorias e opiniões sobre como aplicá-las. "Nós" somos objetividade. E, em contraste, o outro nós, grupos oprimidos, somos relegados a sempre ser objetos de estudo, subjetivos e tendenciosos demais para explicar as leis do universo.

Mas e se o "nós" de nossos artigos, bastiões da objetividade, forem em sua maioria homens brancos ocidentais? Eles povoam nossos departamentos, nossos programas, escrevem nossos livros didáticos; eles nomeiam nossos teoremas e paradoxos. Podemos realmente afirmar que nossas teorias não são tendenciosas?

Portanto, permita-me discutir como esse viés afeta a economia política, focalizando no que acredito ser o cerne da economia política: "classes". Sandra Harding, em 2004 escreveu:

"As diferenças entre a não-burguesia , trabalhadores industriais ou não - diferenças de gênero, raça, etnia, por exemplo - foram observadas nos relatos marxistas, mas não foram de interesse teórico. Na verdade, nenhum arcabouço teórico foi criado dentro do marxismo clássico para explorar as formas distintas de opressão e fontes de resistência que podem caracterizar de forma diferente tais grupos."

Harding (2004)

Acredito que para ampliar a economia política precisamos abrir a sua caixa preta, que é a classe trabalhadora, e entender como a opressão intraclasse desempenha um papel crucial na explicação da dinâmica econômica.

Como podemos conseguir isso? Pegamos emprestadas algumas dicas metodológicas de nossos colegas cientistas sociais. Respiramos fundo e absorvemos todas as evidências de discriminação em nosso campo. Paramos de considerar seletivamente as perspectivas parciais de grupos racializados como "vieses". Reconhecemos que suas experiências de vida particulares lhes proporcionam uma vantagem em forma de pontos de vista negligenciados e os tornam fontes importantes de resistência. Combatemos a discriminação no campo e aumentamos a representatividade. Ampliamos não apenas as aplicações, mas, o mais importante, revisamos as teorias. Recusamos a ideia de que as aplicações de uma teoria tendenciosa podem ser imparciais e podem produzir resultados confiáveis ​​que validam ou negam consistentemente tais teorias. Afastamo-nos do mito da objetividade e imaginamos uma boa teoria não como uma foto tirada de uma perspectiva neutra, mas como um mosaico. E, para construir este belo mosaico, encorajamos e nutrimos perspectivas parciais e entendemos que somente alimentando as fontes de resistência conseguiremos quebrar o grande quadro hegemônico que a economia neoclássica ainda apresenta nas paredes da igreja da economia.

Finalmente, gostaria de terminar pedindo a todos e todas nesta sala dois pequenos favores: Primeiro, na próxima vez que você preparar a ementa de alguma disciplina, adicione diversidade a ela. Em segundo lugar, da próxima vez que você ler um currículo, questione-se sobre cada pequeno julgamento que fizer. Lembre-se de que você é um ser humano que vive em uma sociedade estruturalmente injusta e que a discriminação inevitavelmente acontece quando você deixa de reconhecer que vive e pensa em um mundo tendencioso. A mudança é possível. Temos o dever de lutar por ela.

Obrigada!"

Referências:

Bayer, A. and Rouse, C.E., 2016. Diversity in the economics profession: A new attack on an old problem. Journal of Economic Perspectives, 30(4), pp.221-42.

Haraway, D., 1988. Situated knowledges: The science question in feminism and the privilege of partial perspective. Feminist studies, 14(3), pp.575-599.

Harding, S., 2004. The feminist standpoint theory reader: Intellectual and political controversies. Psychology Press.

Sarsons, H., 2015. Gender Differences in Recognition for Group Work. Harvard University Working Paper.

Luiza Nassif

Luiza Nassif é PhD em Economia pela New School for Social Research. Atualmente trabalha como pesquisadora no Levy Economics Institute do Brad College.