A Importância do Desajuste

Por Leda Paulani

Com sua visão de mundo centrada no indivíduo e com sua concepção de sociedade como algo puramente abstrato, resultado mental da somatória dos indivíduos, o pensamento liberal, sobretudo o pensamento liberal na economia, cuja versão moderna conhecemos por neoliberalismo, confere à educação um papel central nas possibilidades de um país se desenvolver. Sendo cada um responsável por si, a existência de indivíduos mais educados, mais capazes do ponto de vista técnico, mais produtivos, estimulará sua contratação por parte de quem busca comprar força de trabalho, o emprego crescerá, com ele o produto e a renda e a prosperidade surgirá como que por encanto.

Mas nesta, como em outras questões, o liberalismo está completamente equivocado. A educação tem um papel central, sem dúvida, mas não como variável determinante da demanda por mão de obra e sim como elemento fundamental na formação de cidadãos. Uma população formada por seres humanos que não têm o conhecimento básico sobre seu país, sobre a sociedade em que vivem, sobre as condições de sua própria existência, sobre sua capacidade de atuar e de transformar a realidade, constitui apenas um conglomerado humano sem perspectiva.

De fato, o conhecimento de tudo que interessa de perto à vida de cada um deveria ser de fácil acesso. E certamente não há nada que mexa mais com a vida das pessoas do que a economia. A sociedade moderna é uma sociedade monetária, o que significa que a maior parte de nossas necessidades básicas é satisfeita por meio da compra de bens e serviços, com o consequente pagamento de um preço, ou seja, todos precisam de dinheiro. Além disso, nossa sociedade é também uma “sociedade salarial”, porque a grande maioria dos seres humanos tem na venda de seu tempo de trabalho o único meio de vida, ou seja, quase todos precisam de um emprego.

A ciência econômica convencional, que está por trás do pensamento liberal, fala muito em equilíbrio; tenta o tempo todo demonstrar como essa vida do cada um por si, cujo ponto de encontro se dá apenas no dia a dia das transações econômicas, é uma vida virtuosa, em que o bem estar de todos, através dessa mão invisível que se chama mercado, está sempre garantido.

Mas a realidade é bem diferente. O tal equilíbrio é sempre um equilíbrio de fio de navalha. Perder o emprego em meio a um cenário recessivo, é algo funesto capaz de fazer qualquer um perder o sono, vendo nuvens cada vez mais carregadas em seu horizonte. Quando os preços dos alimentos sobem sem parar e o dinheiro que antes se tinha compra menos víveres a cada vez que se vai à feira, o cenário também fica lúgubre. Se o posto de saúde deixa de existir, se remédios que eram gratuitos deixam de sê-lo, se a creche fecha, a vida de muita gente piora. Em poucas palavras, as condições de vida de populações inteiras podem se alterar do dia para noite, levando ao desespero milhões de pessoas, que podem perder tudo que têm, inclusive sua casa, engrossando a legião de sem tetos e de indivíduos desarraigados que abundam nas ruas e periferias das grandes cidades. Em países como o nosso, onde a desigualdade e a miséria são imensas, tudo isso torna-se ainda mais nefasto.

Por que essas coisas ocorrem? Aumento de desemprego e comportamento de preços dependem de humores do tal mercado; posto de saúde, creche, remédios gratuitos estão associados a políticas de governo. Mas o que está por trás desses humores do mercado? Por que às vezes há euforia e em outras parece que tudo vai para o buraco? E porque há tanta discussão sobre políticas públicas e sobre o papel do governo? O que isso tem que ver com essa sociedade comandada pelo mercado? A verdade é que a grande maioria das pessoas tem sua vida na dependência de fenômenos que não entende, cuja compreensão lhes parece impossível, coisa muito complexa, que só cabe a especialistas.

O Desajuste nasceu para acabar com esses mitos e democratizar esse conhecimento. Conhecer economia ajuda a entender todas essas questões, ajuda a lutar pela melhoria das condições de vida de todos, ajuda a combater chagas sociais como o racismo e o machismo, ajuda a atuar politicamente. Com boa vontade e disposição democrática, tudo que parece demasiado complicado torna-se passível de ser compreendido por todos os cidadãos.

Quando alguns “especialistas” ou políticos clamam por “reformas estruturais”, eles em geral estão querendo que a sociedade fique mais ajustada às exigências do mercado, ainda que isso implique trazer incerteza e destruir as condições de vida de muitos. É preciso desajustar esse contrato e pensar fora da curva. As meninas e meninos do Desajuste estão se propondo a fazer isso.

Você não vai arrumar um emprego melhor se ficar ligado aqui no Desajuste, porque, como você vai aprender, o que determina o emprego são as expectativas e o estado geral da demanda agregada. Mas você vai entender muitas coisas que vão lhe auxiliar a compreender o que ocorre com sua própria vida, a lutar por seus direitos, a atuar politicamente e a ajudar na construção de uma sociedade menos desigual e mais solidária. Vale a pena não acha?

Leda Paulani

Professora de Economia na FEA USP. Escritora dos livros Modernidade e discurso econômico (2005), Brasil Delivery: servidão financeira e estado de emergência econômico (2008) entre outros. Ex-secretária de Planejamento, Orçamento e Gestão da Prefeitura de São Paulo.