A responsabilidade da/o economista brasileira/o

Por Fernanda Cardoso

A Ciência engloba um conjunto de métodos e instrumentos para entender e interpretar a realidade; e, também, para agir sobre ela. A função social da ciência, desse modo, passa por impactar positivamente o bem estar social – ou a maneira como as pessoas vivem. Mas, como a ciência não é isenta de ideologias, é preciso ter atenção: a maneira como se interpreta, se age e se impacta o bem estar (e, também, de quem se impacta) é influenciada pela forma como se pratica a ciência. Assim, a ciência pode levar à transformação social, porém também pode levar à conformação social, mantendo (ou justificando) um sistema de dominação prévio.

A Economia é uma ciência social aplicada: seus métodos, modelos teóricos e instrumentos servem para interpretar e agir sobre a dinâmica econômica. E, como qualquer ciência, é permeada por ideologias. E, diferente do que possa parecer, abarca uma diversidade de paradigmas científicos, que desdobram especialmente da perspectiva de Economia Política e da perspectiva do Economics.

O Pluralismo metodológico é desejável, e devemos sim defendê-lo. As ciências sociais, como a Economia, têm, no debate de ideias, uma de suas principais fontes para avançar. Porém, não seria demasiado exagerado afirmar que a responsabilidade da/o economista da periferia vai além. Lembremos: a ciência pode conformar, ou pode transformar um sistema de dominação prévio. As mudanças requeridas para a construção de uma sociedade justa não são poucas, tampouco simples, e envolvem disputas políticas e de poder historicamente estabelecidas. Como afirma Celso Furtado, “Quando o consenso se impõe a uma sociedade, é porque ela atravessa uma era pouco criativa” (Em busca de um novo modelo, 2002, p. 81). Não romper consensos significa, no contexto da periferia, manter-se preso à armadilha do subdesenvolvimento, caracterizado por desigualdades abissais e desrespeito aos direitos humanos mais basilares.

Onde estamos, senão presos a um consenso de ideias, teorias que nos retira os meios de transformar nosso futuro?

A Economia para pensar o futuro do Brasil envolve pensar fora da curva. Pensar fora da curva exige coragem, criatividade e responsabilidade: coragem para não se deixar convencer facilmente por consensos de política que não necessariamente nos dizem respeito; criatividade para desenvolver teorias e interpretações fora da curva que sejam mais adequadas ao nosso contexto e nossos problemas; e responsabilidade em fazer da ciência instrumento de transformação.

Afinal, a que e a quem deve servir a Economia e os/as economistas?

Fernanda Cardoso

Fernanda Cardoso é doutora em economia pela USP. Atualmente é professora da UFABC, pesquisando na área de desenvolvimento econômico.